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EDITORA BALBUCIO PSICANÁLISE E PESQUISA – PROJETO DE TRABALHO

Abaixo, partes do Projeto de Trabalho da Editora Balbucio, que dizem respeito à “Justificativa”, aos “Fundamentos” e aos seus “Objetivos”:

1. Justificativa
A clínica de pais e bebês tem alcançado, nos últimos anos, uma grande repercussão em vários países, entre os quais o Brasil, determinando uma elevação de interesses por esta área. Observa-se, no entanto, que muitos daqueles que se veem seduzidos por este campo de estudo alimentam a ideia equivocada de que a práxis clínica com bebês dependeria de uma formação que não exigiria do formando tantos conhecimentos e preparação quanto se esperaria do profissional que trata de crianças maiores, de adolescentes e de adultos.
 
Este equívoco é alimentado (e ao mesmo tempo atestado) por publicações de qualidade duvidosa, marcadas pelo abandono, reducionismo e desvirtuamento de conceitos fundamentais da psicanálise, comprometendo (1) a formação dos leitores, (2) o tratamento dos pacientes e (3) o reconhecimento do lugar da Psicanálise na clínica de bebês.
 
O projeto inicial da constituição de uma editora nasceu, portanto, da necessidade de prover o público especializado (ou interessado em se especializar) num campo de estudo e pesquisa voltado para a clínica de pais, bebês e crianças pequenas (primeira infância), de literatura de incontestável rigor científico, referenciada por diretrizes teóricas e clínicas de cunho essencialmente psicanalítico.
 
A demanda de publicações de alta qualidade de conteúdo e apresentação é assinalada por observações diversas extraídas de interlocuções entre colegas psicanalistas, mas não restritas a estes, sobre a multiplicidade de autores cujos trabalhos nem sempre correspondem à expectativa do leitor e sobre os riscos que estes oferecem.
 
Se é verdade que encontramos importantes publicações de colegas, oriundas de um trabalho árduo e comprometido com a sua práxis, por outro lado, trabalhos desprovidos de consistência teórica e sustentação clínica têm sido ofertados sem pudor e adquiridos por estudantes e profissionais em início de formação, o que pode resultar em implicações nocivas à prática clínica. “Publixação” é o neologismo utilizado por Jacques Lacan para referir-se a publicações que, mesmo se tornando “sucesso de livraria”, parecem lixo em forma de publicação (Cf. “A psicanálise. Razão de um fracasso”, in Outros Escritos, 2003:344).
 
Assim, da necessidade e da demanda emergiu o desejo de fundação de uma Editora aliado a um compromisso ético de oferecer ao mercado editorial publicações científicas que honrem a Psicanálise e façam jus ao esforço dos psicanalistas que insistiram e dos que ainda insistem em manter viva a letra freudiana resgatada por Lacan. No despontar deste desejo situa-se a transferência à psicanálise como o vetor da criação e funcionamento da Editora Balbucio, cujo destino só pode ser vislumbrado dentro dos propósitos anunciados por Jacques Lacan a respeito do ensino e transmissão da Psicanálise.
 
A escolha do nome “Editora Balbucio” surgiu de maneira surpreendente e instantânea, determinada pelo desejo de dar à editora uma identidade afinada com seus objetivos e que refletisse o propósito da linha editorial, voltada para a clínica de bebês e crianças pequenas, na qual a linguagem comparece como fator determinante da constituição subjetiva. O “balbucio”, concebido como uma atividade linguística infantil que concerne aos primeiros passos do bebê rumo à fala, testemunha os primórdios da interação mãe-bebê e revela a promessa de inserção da criança no campo simbólico.
 
2. Fundamentos para a criação da Editora Balbucio
 
2.1 – Fundação e dissolução da Escola Francesa de Psicanálise
No Ato de Fundação da Escola Francesa de Psicanálise, em 21.06.64, Jacques Lacan refere sua intenção de fundar um organismo em que deve se realizar um trabalho “que, no campo aberto por Freud, restaure a sega cortante de sua verdade; que reconduza a práxis original que ele instituiu sob o nome de psicanálise ao dever que lhe compete em nosso mundo; que, por uma crítica assídua, denuncie os desvios e concessões que amortecem seu progresso, degradando seu emprego.” (“Ato de Fundação”, in Outros Escritos, 2003:235).
 
Passados, aproximadamente, dezesseis anos do ato fundador, na Carta de Dissolução da Escola, Lacan, relembrando as bases que nortearam a sua fundação, denuncia que o seu funcionamento se daria na contramão daquilo pela qual a Instituição tinha sido fundada, caso ele não se colocasse de “través”. No entanto, declara na mesma carta que, apesar da dissolução, manteria os objetivos que o tinham levado a instituir a Escola Francesa de Psicanálise (“Carta de Dissolução”, in Outros Escritos, 2003:319).
 
Desses acontecimentos, destacamos três pontos:
 
a. a ideia de um projeto de trabalho, que seria realizado na Escola;
b. as razões que incitaram Lacan à fundação de uma Escola de Psicanálise, razões que passaram a constituir as próprias bases de funcionamento da Instituição;
c. as razões que o levaram à dissolução da Escola, ligadas exatamente a dificuldades de manter as bases que deveriam sustenta-la.
 
No ato de fundação, Lacan conclama todos a um trabalho, que seria indissociável de uma formação psicanalítica, da qual deveria fazer parte o “bem fundado da experiência”. Lacan garante, em contrapartida, que as contribuições recebidas teriam a “repercussão” merecida “no lugar conveniente”, o que podemos apreender como uma alusão à necessidade de publicação. (235). Portanto, dois elementos atravessam constantemente o texto fundador da Escola: trabalho e publicação.
 
O trabalho seria executado através de três seções: (I) Seção de Psicanálise Pura, encarregada da práxis e doutrina da psicanálise propriamente dita (psicanálise pura ou psicanálise didática); (II) Seção de Psicanálise Aplicada (ou seção de terapêutica e clínica médica), incumbida, entre outros trabalhos, da doutrina do tratamento e suas variações e da formulação de projetos terapêuticos, respeitadas as estruturas introduzidas por Lacan como “sustentando a linha direta da práxis freudiana”; (III) Seção de Recenseamento do Campo Freudiano, que asseguraria “o levantamento e a censura crítica” de tudo o que é oferecido no mencionado campo pelas publicações “que se pretendem autorizadas por ele” (237).
 
À terceira seção, responsável pelos trabalhos de publicação da Escola, caberia, num esforço de articulação com as ciências afins, a atualização dos princípios da práxis psicanalítica através da comunicação daquilo que dela as ciências pudessem “receber de inspiração complementar”. E, inversamente, para instruir a experiência psicanalítica, os trabalhos dessa seção convocariam aquilo que “o estruturalismo instaurado em certas ciências” pudessem a ela oferecer (238).
 
Ao mesmo tempo, a referida seção não descuidaria da ética da psicanálise, ou seja, da práxis de sua teoria, para evitar que as possíveis afinidades entre a psicanálise e outras ciências, chamadas “conjecturais”, ficassem à mercê de uma “deriva política”. (238).
 
Numa Nota Anexa ao Ato de Fundação, Lacan vaticina que o sucesso da Escola seria medido pelo lançamento de trabalhos que fossem “aceitáveis” (242).
 
Por fim, reiterando que a Escola se afirma “antes de tudo freudiana” (243), Lacan critica a prática, na época, na França e fora do país, de uma psicoterapia que se notabilizava por um “conformismo da mirada”, por um “barbarismo da doutrina” e por uma “regressão rematada a um psicologismo puro e simples” (243), concluindo que embora a psicanálise estivesse em toda parte, os psicanalistas estavam em outro lugar (243).
 
Mas, sem se deixar abater, Lacan ensina: “a psicanálise, presentemente, nada tem de mais seguro para fazer valer em seu ativo do que a produção de psicanalistas – ainda que este balanço pareça deixar a desejar.” (244).
 
2.2 – Projeto de Trabalho da Editora Balbucio
Com este título – Projeto de Trabalho – os fundadores da Editora Balbucio levam em consideração aquilo que Lacan toma como sendo a medida do sucesso de uma Escola de Psicanálise: trabalho e publicação.
 
E ainda que a Editora não tenha entre seus objetivos a formação de psicanalistas, que é o propósito maior de toda Escola de Psicanálise, ela almeja contribuir com essa formação através de seus esforços de publicação (trabalho), sem deixar de se ater aos princípios a que deve estar submetido um “organismo” que pretende realizar um trabalho no “campo aberto por Freud” e seguido por Lacan.
 
Assim, os princípios que nortearam o Ato Fundador da Escola Francesa de Psicanálise estão igualmente presentes no Projeto de Trabalho da Editora Balbucio: zelar pela doutrina e a práxis psicanalítica, desenvolvendo um trabalho de publicação que, pelo rigor e qualidade, dê a medida do compromisso ético da Editora.
 
Inspirando-se nos objetivos das três Seções da Escola Francesa, a Editora Balbucio se propõe a contribuir para a formação de psicanalistas e de cuidadores de pais e bebês através:
 
a. da publicação de produções de comprovado rigor teórico e clínico;
b. da publicação de trabalhos acerca da doutrina do tratamento e suas variações (terapêutica), respeitada “a linha direta” da práxis freudiana e lacaniana, uma vez que a terapêutica não distorce a psicanálise apenas por relaxar seu rigor (Lacan, Proposição de 9 de outubro de 1967, 2003: 251);
c. da publicação de trabalhos em articulação com ciências afins, com absoluta observância da ética da psicanálise.
 
O intuito da Editora Balbucio é, seguindo Lacan, o cuidado contínuo com o levantamento e a censura crítica de produções que, mesmo realizadas em seu nome e em nome de Freud, reproduzem os desvirtuamentos que o levaram a declarar, como visto acima: “a psicanálise está em toda parte, e os psicanalistas, em outro lugar” (243). A Editora Balbucio se propõe a desenvolver um trabalho que marque o lugar da psicanálise na clínica de pais e bebês, onde psicanalistas (e outros) possam encontrar um campo propício à intervenção clínica ditada por uma Psicanálise Aplicada (cf. Segunda Seção da Escola Francesa de Psicanálise).
 
Em seus esforços de publicação, a Editora Balbucio pretende atribuir a si mesma a função de “presentificadora da psicanálise no mundo”, trabalho que na Escola recebe o nome de “psicanálise em extensão” (Lacan, “Proposição de 9 de outubro de 1967”, in Outros Escritos, 2003: 251).
 
3. OBJETIVOS
 
Com o intuito de contribuir com o ensino e transmissão da psicanálise, observada a sua ética, a Editora Balbucio estabelece como seus objetivos:
 
a. – Geral
 
Publicar trabalhos, artigos e textos alusivos à psicanálise e à clínica de pais e bebês, selecionados e aprovados previamente pelos editores e, posteriormente, submetidos ao Conselho Editorial, a partir de critérios a serem estabelecidos pela Editora, como a alta qualidade de conteúdo relativamente ao tema abordado e/ou reconhecimento do autor no campo em questão, de acordo com o essencial da doutrina psicanalítica.
 
b. – Específicos
 
1. Publicar ensaios, monografias, dissertações, teses e outros trabalhos científicos.
2. Publicar coletâneas de autores consagrados na área da psicanálise de crianças.
3. Publicar trabalhos interdisciplinares e transdisciplinares de autores reconhecidos no campo da infância.
4. Publicar trabalhos apresentados em eventos científicos (Jornadas, Simpósios, Colóquios, Encontros, Congressos, etc.).
5. Publicar artigos produzidos por carteis, grupos de trabalho (GTs) e grupos de estudo e pesquisa.
6. Traduzir e publicar trabalhos, artigos, textos e similares de autores estrangeiros.
7. Outros, a critério da Editora e observados os princípios da psicanálise de orientação lacaniana, acima apontados.
 
III – Conselho Editorial
Alfredo N. Jerusalinsky
Graciela Crespin (Paris-FR)
Marie-Christine Laznik (Paris-FR)
Elsa Coriat (Buenos Aires-AR)
Inês Catão (Brasília)
Lêda Marisa F. Bernardino (Curitiba-PR)
Rogério Lerner (SP)
Angela Vorcaro (MG)
Aurélio Souza (BA)
Ivan Correa (PE)
Julieta Jerusalinsky (SP)
Maria Cristina Abreu (RJ)
Maria Cristina M. Kupfer (SP)
Rosa Maria M. Mariotto (PR)
Sandra Pedreira (BA)
 
IV – Primeira Publicação (no prelo):
A psicanálise e o bebê em seus primeiros passos (título provisório)
Autor:
Severina Sílvia Ferreira, psicanalista.
Estudo baseado nos primeiros passos da criança rumo à constituição subjetiva, com foco na fala materna em seus diferentes modos de produção, especialmente o padrão “manhês” (motherese), suas variadas funções e efeitos sobre o bebê. Fundamentado na concepção de frustração, operação ligada à primeira época da vida (J. Lacan), o estudo descreve e analisa cenas desenvolvidas durante os cuidados maternos, para mostrar como a criança responde, ao seu modo, à fala e à linguagem e pouco a pouco é introduzida na ordem simbólica. Derivado de um trabalho de pesquisa pioneiro sobre o “manhês”, desenvolvido no Brasil nos anos noventa, a obra pretende analisar ainda os conceitos lacanianos de objeto vocal e lalangue.